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Oásis

Doce Flor, não imaginas porventura a doce recordação que guardo dos teus beijos. Podia porventura traçar as linhas destes escritos através de versos errantes e desesperantes, através de métricas ancestrais e arcaicas, através de escritos que pausados e desordenados não obedecessem às regras linguísticas que estabelecem o conceito de prosa. Escrevo, não escrevo, aliás teclo, pois teclar é isso mesmo, é impulsionar a ponta digital dos membros superiores que te acariciaram, que tocaram no teu formoso corpo, que deslizaram pela tua sublime e formosa pele, pela candura e alvura do teu rosto, estes dedos, que absorveram as sensações tácteis mais dóceis, e são estes dedos que teclam nestas teclas inscritas de caracteres latinos. Os mesmos dedos que por ti anseiam. A mão, deixou de me auto flagelar, deixou de ser o ímpeto para a concha encrostada num interior angustiante, a palma da minha destra e impetuosa mão passou a oferecer, passou a ceder o desejo, passou a ser a génese dos rituais afectivos e amorosos. Da dualidade de corpos que se unem num leito de afecto, alegria e harmonia. Como que um complemento salutar, como que encontrar a paz depois da guerra. É destroçar os beligerantes, é vencer batalhas, sair arrasado, sair destroçado, ganhar o mundo, ganhar o espaço, o Universo, conquistar os corpos, mas não ganhar as almas, e das batalhas infinitas, das ancestrais e universais, sair vencido e derrotado no interior, e reencontrar o verdadeiro Amor.

E então num leito de desejo e alvura, encontro o deleite, encontro o afecto nuns doces braços de uma doce mulher, nas cândidas pétalas de uma Bela Flor, que por sentido inverso de línguas equatoriais, obtenho o Nome da adorada homónima poetisa que nasceu além do Tejo. E nuns áureos e sedosos cabelos a lembrar as auroras boreais, auroras nocturnas, auroras madrigais, aqueles arco-íris da noite, que os homens contemplam em latitudes polares, olhos da cor do céu, olhos da cor do mar azul, olhos da cor da melancolia, e nuns cabelos da cor do sol, encontro eu a alegria.

A doce Flor do Éden, a minha Eva, sendo eu Adão, somos então os primogénitos, somos os pecadores, pois a maçã grave newtoniana, que cai nos sentido axial, caímos nós então num solo de afecto e folia, ao envolvermos os braços e os corpos, ao afagarmos as mãos numa mutualidade conspícua, numa circunspecção afectiva, nuns abraços ternos, e os corpos, límpidos e cristalinos, envolveram-se em uma entidade una, única, rejeitando eu o nome de rei dos Hunos, de Átila, o guerreiro impiedoso, que pereceu às mãos de uma amante, que o amava e desejava.  Mas eu, não caminhei com tropas, não percorri nem vandalizei com exércitos, eu limito-me apenas a observar áureos filamentos que me identificam no diacrítico da terceira letra do primeiro nome próprio.

Doce e bela Flor, recordo com carinho o dia mágico e dominical em que me desvirginei em ti. Em que nos tocámos e nos envolvemos, em que nos abraçámos e beijámos e recordo-o com afecto, com um misto de desejo e carícia, com um pouco de luxúria e candura.

Encontrei-te bela e formosa na entrada do prédio, cheguei ao patamar de uma rua imensa, antes tinha vagueado no meu cavalo negro por ruas e ruelas cheias de peripécias, caminhava então qual mero vagabundo, perdido numa vila longínqua nos subúrbios de uma metrópole decadente. Afastava-me das correrias, afastava-me dos estresses quotidianos, e caminhava então pelo vale, pelo vale das árvores, pelo vale arbóreo, tinha acabado de contornar, de envolver as três oliveiras, e caminhava eu então sequioso dos sucos das frutas de uma figueira, bela, alta, formosa. Caminhava então perdido no meu cavalo, rodopiava, envolvia os prédios e traçava os trilhos que uniam estes dois pomares, estas duas géneses arbóreas, estes dois frutos que se uniam numa união de paladares afectivos.

Cavalgo no meu cavalo negro, qual cavaleiro errante perdido na madrugada de uma lua cheia, numa data mágica deste sétimo dia semanal, dia dos rituais cristãos, dia das homilias afectivas de poder observar os traços que formam o teu rosto, de poder alcançar o azul dos teus olhos. E questiono-me bela Flor, ao tocar nas tuas pétalas, ao assimilar o teu odor, serei eu o insecto nocturno sequioso do teu suculento néctar, minha dócil Flor do Éden? Recordo com afecto, quando contornava os caminhos que estreitos e esguios, me dirigiam ao topo da colina deste Oásis. Virei à esquerda, antes da estalagem onde os peregrinos se abastecem de mantimentos e bens para as suas caminhadas, segui em frente, desci pausadamente no meu cavalo, atingi a depressão geográfica desta pequena cidadela, e ao longe a zina, o cume, o alto, o altar onde repousa a minha deusa da noite.

Subi, e obedeci ao paradoxo linguístico, mas não, pois eu, cavaleiro amante e errante vim dos subterfúgios da alma, dos poços que afogam os espíritos criadores, e emergi-me das cinzas, dos fogos, e então subi eu para cima, ignorando neste pequeno excerto da minha missiva amorosa o pleonasmo que poderão eventualmente os mais acérrimos críticos evidenciar. Subi, fui ganhando altitude, fui-me afastando do cerne terrestre, mas ganhando a liberdade que preconizas nos teus versos bela Flor.

Calmamente atingi a zina, a areia ofegava-me os pulmões, tal a sua porosidade, observei a tua tenda, o teu local de abrigo na noite escura, observei o local que te protegia do frio nocturno. Tu doce Flor, doce Oásis esperavas-me, quais amantes da madrugada, éramos nós dois adorados, éramos nós duas entidades, duas peças de uma única formatura, éramos o mais e o menos, forças magnéticas ocultas que forçam a união natural de amantes loucos. Naquela noite fomos o alto e o baixo, tu a Flor, eu a espiga, tu a pétala, eu o insecto que depois de metamorfoseado se liberta e ganha asas, fomos o dois e o três em todos os seu simbolismos numerológicos, fomos a Lua e o Sol, formámos um sistema astral, fomos o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste, foste tu nessa noite um Oásis num deserto, foste uma fonte ao ser sequioso em que me revia, e no entanto dócil Flor, és também o mel que me adoça os lábios, e que me nutre, eu corpo e alma carentes de amor.

Entrei na tenda que te abrigava na noite gélida, mas o seu interior fervia em beijos que me prendiam os lábios, sentei-me no tapete, e ofereceste-me um chá, que me enterneceu e me aqueceu o corpo. Sentaste-te a meu lado, e proferiste ternas palavras, aproximei-me de ti e abracei-te, coloquei a minha destra mão sobre o teu dorso, e com a sua palma aberta tocava-te no ombro, simbolizando assim a ternura mútua e reciproca sentida por ambos. Observei-te e beijei-te novamente, toquei-te novamente, tinhas na tenda que te abrigava uma caixa de música que nos entretia nos abraços que dávamos. Sentados e envolvidos no tapete do receptáculo dos amantes noctívagos, abraçamo-nos, acariciámo-nos e nos entretantos bebemos um café que nos manteve despertos pelo resto da noite longa, a noite que nos esperava, pois a noite é sempre especial, a noite, altura em que o Sol se esconde, e a Lua no seu esplendor ilumina as colinas que contemplei nas caminhadas efectuadas.

Calmamente fui, deslindando o mistério do amor, fui destrinçando e fui renegando a muralha que nos separava, fui perfurando o muro, e fui removendo o betão armado que me envolvia numa clausura impiedosa, e quando, naquele momento infinitamente sublime, e cheio de desejo e impetuosa provocação, pude deslocar os meus dedos sobre aquela pequena tira de tecido que suportava o traje que te cobria os seios, quando pude deslocar sobre o teu antebraço esta tira de tecido, quando esta frustrante peça que me impedia de contemplar as colinas do teu tronco, o vale que se encontra no regaço que as une e que as separa, quando baixei subtilmente, estas duas tiras, a do braço esquerdo e direito, e fui calmamente com os dígitos forçando esta pequena indumentária acastanhada a descer pelo teu alvo corpo, pude observar os dois altares mágicos, a magia do número dois, pude observar a dualidade infinita e luxuriante com que ansiava, como que duas fontes que jorram em momentos pós-fecundação os nutrientes que alimentam os novos homens que habitarão o cosmos.

Observei as lindas fontes, alvas, cheias de candura e beleza infinita, e no seu topo, no topo destes altares, cujas silhuetas e formas estão explícitas e patentes em tantas e diversas formas de arte, profanas e sagradas, estas formas tão divinais que incutem nos homens e mulheres aqueles desejos, aquela ansiedade, estes dois altares, que quando a doce Flor está estendida a captar os raios solares, veneram os céus e o infinito do Universo, e quando te observo, bela Flor, erecta, na minha fronte, as tuas massas de carne divinal observam-me de frente e com elas contemplas o mundo. As fontes que os teus seios constituem, são como que a meta da mais longa e fatigante caminhada, aquilo que o peregrino mais crente e carente anseia. E ao observar as tuas colinas corporais que te embelezam o tronco, pude maravilhar-me com tamanha beleza e beber do suco, que jorravam da sua extremidade.

Pois bela Flor do Éden, acredita que é maravilhoso, poder ler-te isto que escrevo, acredita que o sentimento de te poder endereçar, e simultaneamente poder beijar-te é algo que me inunda o ego de alegria. É evocar a egolatria da infância.

O desejo tornava-se incomensurável, não aquele desejo frenético angustiante, ou melhor talvez o fosse, mas sentir tal desejo por alguém que nos compreende, que nos complemente, e que nutra por nós sensações similares, por certo que não pode ser um desejo funesto. Na divisão maior do teu abrigo nocturno; o tapete não era por conseguinte o local mais apropriado para o ritual do amor aos céus, e do amor enternecido que nos unia, o tapete era apenas o começo, era apenas o leito dos preliminares afectivos; mudámos para outro compartimento, ergui-me erecto, levantei-me e caminhei um pouco curvado no sentido do outro espaço divisório, segui no teu encalce, e afastaste suavemente a cortina que separava as duas divisões, e qual acto provocatório deixaste que esta te encobrisse a silhueta, e desapareces-te momentaneamente pelo segmento onde se veneram os deuses profanos e sagrados do Amor. Senti-me perdido, desencontrei-me por segundos, mesmo que o abrigo que nos acolhia nesta escura noite desértica no exterior, fosse pequeno; pequeno mas por certo bem mais acolhedor que muitos palácios reais. Reencontrei-me e descortinei a fina membrana que nos separava, a cortina que nos afastava apenas visualmente. Atravessei-a e observei-te novamente bela, formosa, altiva, doce, desejosa dos meus beijos, carente dos meus afectos, e deitaste-te no pequeno estrato que, apesar de não ser muito alto, era reconfortante.

Eu carente dos teus lábios, carente de observar novamente o azul dos teus olhos cristalinos, ansioso por sentir o odor dos teus cabelos, impaciente por preencher o meu espectro visual com as tuas feições, aproximei-me e observei-te de perto.

E é este momento astrológico que nos uniu, o momento sagrado que os povos antigos veneravam, a este momento erigiam-se catedrais, pilares, antas, menires, como que com o intento de poder descobrir este mesmo instante. Não existe então similaridade silábica entre momento e monumento? És tu dócil Flor o monumento dos momentos de afecto e ternura, o monumento que naquela noite se encrostou nesta alma e me adornou o cerne do ego.

Aproximei-me de ti, despi os trajes que me incomodavam e deixei-me embriagar pelos teus actos, pelas tuas palavras, pelas tuas feições, pelos teus gestos, pelo toque das tuas mãos, pela textura dos teus lábios que untados de saliva nutrem o meu parco corpo, deixei-me embriagar pelo teu radioso cabelo das auroras boreais, trinquei os teus mamilos, chupei-os qual bebé morto de fome e sede, agarrei-te nas coxas e senti o ímpeto do desejo atravessar-me a libido. Fui percorrido por fogo nas veias e artérias, que se revelaram na extremidade da pela, e se canalizaram para as zonas mais erógenas da minha essência: os lábios, a ponta dos dedos, a ponta dos pés, as bochechas, e todo este vigor foi concluído num clímax vigorante que jorrou a hemoglobina esbranquiçada e fecunda no leito que nos acolheu; foi o leite do deleite, foi leite jorrado no nosso leito.

Foi este momento simultaneamente herege, pecaminoso e da mais pura e doçura beleza que recordei nessa mesma noite no meu acampamento, depois de regressar da caminhada em que me uni a ti.

Deitei-me na divisória escura, cerrei os olhos, e quão belo foi aquele momento em que observava a tua face, a preencher-me. De olhos abertos via apenas o breu nocturno, e quando cerrava as pálpebras, contemplava a silhueta facial que tinha adorado minutos antes. Adormeci assim, e contigo bela Flor sonhei apenas aguardando aquele momento, em que erigirei de novo em ti o monumento do amor e da ternura.

E enquanto redijo estes escritos bíblicos e proféticos do afecto, aguardo pelo dia quíntuplo, em que nos reencontraremos, desta vez na tua propriedade nos bosques longínquos, onde me esperarás no teu palácio e me beijarás novamente pelos corredores e  largas divisões que formam a sua planta.

Dócil Flor, és a mais bela princesa do cosmos.