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De Praga ao Pragal

Em Praga

    Caminhava pensante, inquietado com as vicissitudes de uma vivência por vezes não desejada; os passos eram suaves, latentes, e intrigava-se por vezes com as questões metafísicas da vida por vezes tão efémera. Mas se nascer é morrer como em tempos pensou, pois num universo onde um ano luz é o espaço que esta percorre durante um ano, imensidão espacial incomensurável aos primeiros estudiosos dos astros, onde a durabilidade e idade presente do universo que habita ultrapassam as fronteiras que concebe para o seu mundo interior, pareceu-lhe a ele, mero e simples mortal, que a vivência que leva no quotidiano, não passava de uma réstia de um divino omnipresente e poderoso, uma fagulha humana de uma chama criadora enorme.

Caminhava pelas ruas dessa cidade bela e por vezes melancólica, Praga, a cidade de que pouco sabe ou conhece. Desconhece muito pois não se informou, não se preocupou em indagar da razão da sua existência, da sua génese, das ideias dos seus criadores. Atenta apenas que é uma cidade antiga, com fortes traços medievais, bem conservada e que acolhe os mais diversos e variados tipos de indivíduos que se regozijam com a beldade dos seus monumentos. As igrejas medievais, que conservam o traço de um gótico melancólico, encaram o visitante com indiferença. As ruas, por vezes são enviesadas e com a largura suficiente para fazer passar os eléctricos que transportam quer os turistas, quer o mais afincado transeunte que deixa o automóvel particular em casa; mas também as encontramos estreitas, inclinadas onde a largura mal permite a passagem de um único automóvel.

O rio Moldava de uma tonalidade acastanhada, não deixando perceber se tal se trata de simples réstias de uma lamaçal profundo, se de simples sujidade, atravessa a cidade percorrendo-a e penetrando-a. Diversas pontes fazem a ligação entre as duas margens desta cidade do centro da Europa, e a tonalidade do rio, se provém de alguma anormalidade biológica ou ambiental, tal é algo que afecta os rios de quase todas as capitais europeias.
    A ponte principal, a ponte Carlos, é sem dúvida a mais famosa, diversas estátuas embelezam-na e adornam-na tornando-a uma das principais fontes de atracção turística. Diversos artistas revelam os seus dotes mágicos nas extremidades laterais desta famosa ponte. Pintam belos quadros do rio e da cidade, das gentes ansiosas por verem o seu rosto ser pictoricamente traçado através de um lápis colorido e de músicos que guardando um mundo interior de sentidos os extravasam para o campo do audível, usando as mãos, ou os lábios e os pulmões. E muitas outras formas de arte observamos sobre a ponte que une as duas margens da cidade.

    Joel, calmo observa todas estas formas de arte intrigando-se, colocando as mais variadas questões de ordem filosófica e antropológica. Se o mundo é criação divina, se a vida é o sopro de um criador que coloca a ordem, forma antagónica do caos, no topo dos mais elevados valores, se a destruição, o assassínio, o espancamento, a mutilação, a violência extrema, fazem parte dos impulsos interiores do ser humano, caracterizam o Homem enquanto ser, a arte é a revelação pacífica e salubre de todos estes sentimentos destrutivos. A arte é a ponte que une as margens do mundo exterior que o homem demonstra aos outros e do mundo interior, incrível, enorme, cheio de frustrações, ansiedades, medos, desejos fatídicos e amorosos. A arte é o caminho para a demonstração do mundo rebelde e conturbado do ego. Daquele ser profundo, que poucos conhecem, que nem os próprios conseguem conhecer, e que os entendidos nas ciências que se dão a conhecer, fazem apenas uma pequena abordagem a este mundo imenso e maravilhoso do ser interior. Fica então a arte, a revelação. E por várias formas diversas se faz revelar esta magia.

    Se os antigos, embriões de um ser racional que então se formava, usavam uma espécie de escopro e uma pedra pesada para moldar as primeiras figuras nas pedras cavernais, iniciavam assim a comunicação para as gerações vindouras, deixavam assim o legado documental de uma vivência caçadora recolectora. E Joel observava e pensava nisto tudo, questionava, indagava, qual a razão destes homens ao produzirem estas belas formas de arte na ponte? E porquê na ponte? Qual o simbolismo das pontes? É a ligação entre duas margens, é certo, e as margens tanto podem ser físicas como simbólicas.

    A noite caiu, o sol pôs-se, e nesta noite de verão onde a temperatura é amena, o ambiente convida os homens e mulheres a saírem, a passear pelas ruas da cidade, a se unirem em clubes e discotecas aos sons das batidas mais ofegantes. Joel caminha, trilha os passos sobre a calçada, sobre o passeio perto da ponte, percorre alguns metros perto da extremidade da ponte Carlos e entra num clube famoso da cidade, senão um dos mais famosos, uma discoteca com vários pisos, em que em cada um, um tipo diferente de ritmo abala os corpos saltitantes. Nervoso, inquietado, faz os maiores reparos a este género musical. Estas músicas que abundam pelos clubes das cidades ocidentais decadentes, segundo ele, não passam de sons, meras batidas primárias, que apelam aos sentidos mais banais. Sons graves que penetram naquela mulher bela que observa, cabelos lisos loiros, revelando a primazia da beldade das eslavas desta Republica centro europeia. A jovem, salta ofegante ao som dos batimentos mais intensos, sente-se livre, não deixando que as reprimendas mais constrangedoras a impeçam de se movimentar. Move-se, os braços executam movimentos ascendentes e descendentes ao som das primordiais batidas, revelando assim, similaridades com o bater cardíaco maternal. É que Joel, intrigado a observar a bela jovem, não consegue que a sua razão pura permita que sinta sensações semelhantes. É a reprimenda cultural e social, que lhe afecta o espírito e a alma, que o torna infeliz. Limita-se então a apreciar, a bela obra de arte inconsciente, não premeditada como obra artística, que é contemplar o dinamismo prosaico desta bela diva. Observar como se move, como os seus membros inferiores, a impulsionam verticalmente, como as suas ancas que se movem sobre o eixo do corpo, executam os movimentos mais sublimes e erógenos. Como as suas coxas, patentes num traje justo, revelam as proporções da divindade feminina. Como o pescoço, se movimenta em acenos circulares, revelando assim o êxtase da jovem que se liberta. As luzes intensas, que ritmam os corpos e as almas, em padrões fluorescentes e repetitivos, acompanham os sons. Joel observa o panorama difuso, estático, querendo parecer despercebido, anónimo. Limita-se a apreciar esta dádiva ocular.

     E como ser pensante, volta a questionar-se porque razão os indivíduos jovens, procuram nestas sensações, nestes sons a felicidade e o convívio. E de súbdito, a resposta surge subliminarmente na sua mente depressiva. A resposta mais uma vez cabe à antropologia, a ciência que une o caris investigatório da qualquer ciência ao conhecimento interior que o próprio Homem tem em se descobrir, como se tratasse de um baptismo colectivo, em que o Homem enquanto ser social e comunitário procura a razão da sua existência no passado; para assim entender o futuro que trilha enquanto ser que habita o mundo.

    Então porque procuram estes sons, estas batidas, os jovens das sociedades modernas? Procuram senão o batimento cardíaco materno, o abrigo primordial, a origem carnal, o receptáculo de onde provêem, e frustados com a vida metropolitana que levam no quotidiano, encontram nestes sons, as ternas comunicações primárias de um coração que bombeia sangue para dois corpos, e cujo som produzido nesse batimento atravessa os fluídos corporais chegando assim aos ouvidos do ser em formação. E nestes sons, sinais que percorrem a velocidades luminosas os fios de um amplificador, que por sua vez excitam uma bobina eléctrica que provoca as variações de pressão atmosféricas que são transmitidas, não aos ouvidos da bela jovem, mas por questões de ressonância auditiva, a todo o seu esbelto e formoso corpo.

    É no amor maternal então que se encontra a essência dos sons mais graves ouvidos nas mais banais discotecas e clubes, e em tudo isto pensa Joel. Imóvel, trilha lentamente os passos do caminho que une os dois no piso da pista de dança, faz um sorriso forçado, a muito custo, e diz umas palavras quase inaudíveis dado o barulho ensurdecedor, ela ri-se, desvia a face, ignora-o e afasta-se. Para sentir tais sensações, para frequentar tais locais, é preciso sentir-se liberto dos constrangimentos diários, e se o ser não entrar no ritmo que é comum a todos que dançam e se divertem é marginalizado inconscientemente. À entrada destes clubes, por vezes seguranças impedem a entrada daqueles que não obedecem aos padrões exigidos para os mesmos, e quando o permitem, a cobrança é feita através de numerários por vezes de quantias elevadas; afinal a liberdade tem o seu preço, e não é para todos os que a desejam.

    Depois de percorrer os diversos pisos da discoteca, de ficar maravilhado com o que então observara, e simultaneamente frustado por não poder tocar no belo espécime que contemplou, saiu Joel para fora do local, e vagueou só, à noite pela cidade, caminhou sob o luar que se imiscuía com a luminosidade citadina. E porque se divertem os jovens à noite? Questiona ele. Na lua está a resposta, esse astro que nos inunda com as suas forças magnéticas, que nos envolve com a sua luz que obedece às equações sinusoidais do crescimento e decrescimento, desta instabilidade luminosa e periódica que transmite aos seres sob a sua influência a capacidade de se revestirem de uma primazia ancestral e humana. É por isso que os jovens se divertem na noite, e é sob a lua cheia, o pico luminoso, a zina astral, que as mais desvairadas atitudes se cometem, onde a maior liberdade é sentida, é nesta altura, que os espíritos primordiais se colocam no topo de todos os patamares sensoriais. Será a lua, a razão da diversão da noite?

    Caminha então Joel, pelos caminhos da cidade nocturna. E para os menos belos que se apresentam à sociedade, há sempre aqueles locais mais recônditos, mais censuráveis aos olhos das sociedades modernas, mas que por falta de beleza exterior e liberdade interior dos indivíduos, se apresentam muitas vezes como a solução para as frustrações amorosas mais intensas. As luzes de néon, esse elemento gasoso que vagueia pelos tubos contorcidos que formam símbolos e letras e que sob descargas eléctricas emitem luz, atraem insectos nocturnos, seres vivos insignificantes e minúsculos, mas atraem talvez em igual número homens que procuram aquilo que a sociedade não lhes permite ver e observar, pois o quotidiano censura tais atitudes. É também um clube, mas um clube de caris diferente, onde mulheres mostram os seus corpos nus, e dançam abraçando um varão que por vezes ao ser liso para não magoar, torna-se frio ao toque. A música aqui tem outra essência, outra tonalidade auditiva, mais sensual e apelando a instintos sexuais e eróticos menos sublimes, mais carnais e mais objectivos. É também uma arte, uma dança, onde a técnica consiste em colocar os corpos em posições que realcem a sua beldade e erotismo. E nestes locais, nestes aglomerados de homens quer infelizes, quer desejosos de observar mulheres desnudas, aquilo que inconscientemente sempre procuraram desde que saíram do canal que os liga ao ventre materno, outras mulheres diferentes, exibem os belos e luxuriantes corpos num clima ora acolhedor e recatado, ora infeliz e deprimente. Joel observa então toda estas divas, estas sereias de terra seca. Pois se as sereias em tempos serviram ao imaginário dos marinheiros que levavam uma vida celibatária forçada, estes locais em portos estratégicos serviram muitas vezes para transformar esse imaginário em realidade. Mas de certo, que as esposas, e noivas se encontravam, algumas, na terra natal esperando o noivo ou marido que ao mar partira em busca de riquezas por vezes desconhecidas. Joel observa todas estas mulheres, mas aqui também não encontra de certa forma a satisfação interior, pois se com a outra jovem não conseguiu comunicar, aqui apenas observou e contemplou.

Sai novamente deste local, caminha e encontra uma escadaria pela qual tem de atravessar para chegar ao local onde está hospedado. Tem de dar os passos que suaves e seguidos, contínuos e  sincronizados, permitem Joel subir a escadaria até ao topo, escadaria essa que permite os peões atravessarem de uma rua inferior até outra superior, sem terem de percorrer caminhos mais extensos. Observa os degraus, são rectilíneos, formam um ângulo recto, que segundo o simbolismo pode representar rectidão, ou uma quina que por vezes se torna árdua e cortante. É o simbolismo associado aos traços mais elementares que se encontra presente nas silhuetas e contornos de todas as formas que observa. Se o degrau é cortante e rectilíneo, já o corrimão onde se apoia é suave, circular, observando as regras da perfeição associadas às curvas e elementos circulares, pois não ferem aqueles seres mais cansados que nele se apoiam. Mas ele, ainda jovem, Joel na Primavera da vida ainda não tinha atingido tamanha perfeição circular, como tal prescindia do apoio dos corrimãos que acompanhavam a escadaria no seu trilho ascendente. Inexperiente e por vezes quadrado, limitou-se a subir as escadas sozinho, tarefa que se revelou árdua e no final indesejada, pois a escadaria é imensa, longa, e já era bem de noite, e Joel já se encontrava acordado há várias horas. No topo toma uma direcção que julga ser o caminho da pousada onde está hospedado, no entanto perde-se nas ruelas que formam a cidade, julga estar perdido, perde o norte, o sentido de orientação, perde o mapa astral interior, e nem sequer consegue apontar para ocidente, sua casa, sendo que todos os seres perante um sentimento mais desesperante conseguem sempre instintivamente apontar para o caminho que os leva às origens. Encontra então uma rapariga, não descura se é meretriz, se é santa, mas parece apenas ser uma simples jovem banal que durante a noite leva o cão a passear. Mas que faz por aqui a estas horas, neste local? Indaga ele. Talvez more aqui perto e tenha decidido vir passear o seu fiel amigo, pois não é o cão o animal, que ao longo dos séculos tem-se revelado o fiel amigo do homem, protegendo-o nas situações mais inóspitas. Aquele que nos guia por vezes na escuridão da noite. Joel interpelou-a, e ela, simpática, acedeu em orientá-lo e saciar o seu desejo em encontrar o local onde repousa e dorme naquela cidade.

Dirigiu-se então até à pousada, entrou no quarto e adormeceu de imediato, tal o cansaço. No dia seguinte teria de se dirigir até ao aeroporto Ruzyne de Praga para voar para Lisboa e depois até casa, um apartamento no Pragal, na margem sul do Tejo.

No Pragal

    Chega ao final da manhã ao aeroporto da Portela, Lisboa. Recolhe as bagagens pesadas que carregara a semana anterior até este mesmo local para partir de viagem. Gentes de todos os credos e origens movimentam-se por estes locais, portos aéreos, que por junção semântica se designaram aeroportos. Traz as malas, e houve em tempos um desenhador de adereços, que se lembrou de facilitar a vida aos passageiros e construir uns minúsculos eixos rolantes nas malas, que sobre o piso, rolando, libertam o peso do dorso de quem as traz. Carrega a bagagem, coloca-a no chão, e puxa-a. Essa invenção não cabe aos desenhadores de malas, mas é sim muito mais ancestral, cabe aos inventores da roda. Avança na direcção da alfândega, não tem nada a declarar, chega à última saída e depara-se com uma bifurcação que se encontra perante todos os passageiros que chegam à Portela. Tem de escolher entre sair para a esquerda, ou para a direita. A bifurcação encontra-se no seguimento de uma curva, depois de uma porta automática, e devido ao fluxo enorme de passageiros, o mais banal dos mortais não tem tempo para fazer considerações simbólicas entre o destro e o canhoto, tem apenas de escolher instintivamente o caminho a tomar. Joel toma um dos caminhos e dirige-se para fora das instalações aeroportuárias. Caminha para a estação de autocarros, entra num que o leva até à estação de comboios de Entre Campos, pois parece que esta se situa entre outros dois campos, o grande, local universitário, e o pequeno, com um jardim e uma praça tauromáquica. É neste meio, neste senso comum, nesta moderação que não encontra para si mesmo, nesta estação que fica entre os campos, que apanha o comboio que o leva até à margem sul do Tejo, até casa no Pragal. O comboio pára em Sete Rios, Campolide e depois atravessa o rio, revelando uma bela paisagem azul, e depois pára no Pragal. Um estação simples, renovada, e uma localidade dividida por uma auto‑estrada. 

Joel mora na parte nova da cidade; chama-lhe nova para contrastar com a antiga, mas os prédios e os edifícios, alguns com pouca manutenção, devido à vertente social do bairro que habita, revelam uma decadência secular. Por vezes encontramos prédios renovados, em bom estado de conservação. Mas que localidade é esta onde habita, o Pragal? Localidade dividida pela auto‑estrada, com uma pequena ponte a unir as duas faces contrastantes, de uma terra que tem similaridades semânticas com a capital europeia onde tinha estado no dia anterior. E no lado antigo da localidade, encontramos a estátua que marcou a sua juventude. O cristo, apelidado de rei, que nos altos tem uma posição marcante na paisagem que se apresenta aos lisboetas, mas a ele Joel, tal estátua apresentava-se bem mais de perto, de um cristianismo latente da sociedade a que pertence. A redenção, o sofrimento, o simbolismo, a submissão aos credos divinos de um Deus omnipotente, estavam patentes na estrutura de betão que observava diariamente. Os lisboetas observam-na do outro lado do rio, e ele observava-a do outro lado da auto-estrada. Mas indagava ele no seu quotidiano as semelhanças linguísticas entre os diversos termos de uma mesma língua.

Chega a casa esfomeado, não tem nada no frigorífico, larga as malas no quarto. Sai de casa e dirige-se a um café situado ali perto, o empregado questiona-lhe o que vai desejar, ele responde: “Dois pregos e um sumo de laranja”. O empregado ciente daquilo que sentia observa-o e censura-o e então Joel responde: “Talvez tenha razão, talvez os pregos não se adeqúem aquilo que procuro, pois se o cristo é rei, talvez seja também livre, pois é este um cristo que se eleva nos céus, que de braços abertos observa a bela vista da cidade, e que não traz os pregos cravados nos pulsos, nem sequer carrega a cruz do sofrimento, é um cristo de betão, é um cristo enorme, belo e sem chagas, se assim não fosse, não seria rei”

Volta a casa, ao bairro de estruturas melancólicas, mas que cujas gentes fervilham de sentidos viventes, entra em casa, deita-se cansado e pensa que o amanhã há de trazer algo de novo.

Publicado pela Minerva Editora na sua edição "Intemporal"